Philippe Raposo: “Princípios do CACD” por um aprovado em 2017

*por Philippe Raposo (prof de Direito Interno do IDEG e diplomata aprovado no CACD 2017)

Raposo

Após anos de estudo e a consequente aprovação no CACD, sugiro abaixo alguns princípios que podem ser úteis para os candidatos. A lista é exemplificativa e meramente sugestiva, e cada princípio está sujeito a interpretações variadas conforme o perfil individual do candidato.

O primeiro é o princípio do equilíbrio. O equilíbrio é um princípio inerente a todas as disciplinas do concurso. Nas provas de língua portuguesa e inglesa, por exemplo, espera-se uma linguagem equilibrada (diplomática) sobre qualquer tema apresentado pela banca. Em economia, fala-se sobre equilíbrio macro e microeconômico. Em política internacional, buscam-se meios para se corrigir desequilíbrios na relação assimétrica entre os Estados. Na prova de geografia, equilíbrio climático e ambiental são propósitos constantes. O desenvolvimento sustentável nada mais é do que um equilíbrio entre atividade econômica e preservação do meio ambiente. No direito, temas como igualdade soberana e solução pacífica de controvérsias pressupõem uma relação jurídica equilibrada entre os agentes. São apenas alguns exemplos de como o equilíbrio tangencia muitos dos temas da agenda diplomática e, por consequência, a prova do CACD. Palavras como concerto, estabilidade, igualdade e harmonia são frequentes na linguagem diplomática, e todos elas estão semanticamente relacionadas ao princípio do equilíbrio. O próprio diplomata deve ser equilibrado nas esferas pública e privada, no uso da linguagem (oral e escrita) e no comportamento pessoal. Para o candidato, ter equilíbrio é igualmente fundamental: antes, durante e depois do concurso. Isso envolve o equilíbrio físico e, sobretudo, o equilíbrio emocional e psicológico.

O segundo é o princípio da linguagem diplomática, que deve ser precisa e objetiva, além de equilibrada. Ao redigir uma dissertação argumentativa na segunda e na terceira fases do concurso, é interessante para o candidato adotar uma postura de “como se eu fosse diplomata” e “o que um diplomata escreveria sobre esse assunto”. A escolha do vocabulário correto faz parte dessa lógica. O encadeamento das ideias e o próprio ritmo imposto pela ordenação das palavras – o estilo da escrita, em geral – podem provocar melhor ou pior impressão no examinador, algo com o que o candidato deve se preocupar. A clareza no raciocínio deve ser transcrita por meio de um texto claro, objetivo e com vocabulário preciso, como se espera do diplomata no exercício das suas funções. É lugar-comum dizer que o diplomata deve “informar, negociar e representar” (art. 3º da Lei do Serviço Exterior brasileiro). Não é coincidência o fato de que essas três funções – típicas da carreira – são concretizadas por meio da linguagem.

O terceiro é o princípio das regras do jogo. A título de explicação, vejamos as regras das eleições presidenciais nos EUA. Para ser eleito, o candidato deve obter a maioria dos votos do colégio eleitoral, mas não necessariamente a maioria dos votos da população norte-americana. Em tese, o presidente norte-americano pode ser eleito com 23% dos votos populares, algo que é possível se forem respeitadas as regras do jogo. Naturalmente, há estratégias de campanha a serem adotadas pelos presidenciáveis em conformidade com esse sistema. Quincy Adams, Hayes, Benjamin Harrison, George W. Bush e Donald Trump foram eleitos com menos votos do que seus respectivos concorrentes. Qual é a relação disso com o CACD? O concurso tem suas regras, que devem ser conhecidas e consideradas pelo candidato atento. Na prova discursiva de português, por exemplo, não cometer nenhum erro de gramática significa 50% da pontuação total, o que é muito significativo. Ser fiel ao enunciado das questões discursivas, sem digressões sobre pontos não exigidos pela banca examinadora, também é uma forma inteligente de respeitar o jogo. Além disso, ter conhecimento sobre a banca examinadora e sobre o que pensam os seus integrantes é um meio legítimo de jogar de acordo com as regras. Ao corrigir as respostas, os examinadores saberão discernir os candidatos que conhecem, ou não, suas opiniões acerca dos temas cobrados. E isso gera reflexos diretos na pontuação. Outro exemplo de uso das regras é a possibilidade de deixar questões em branco na primeira fase; e respeitar a proporcionalidade de linhas para cada item cobrado no enunciado das provas de segunda e terceira fases. Enfim, as possibilidades são inúmeras. O candidato pode se beneficiar de algumas « anomalias » desse sistema.

O quarto é o princípio da interdisciplinaridade. Embora os cursos preparatórios para o CACD ainda sigam o modelo compartimentado por disciplinas, com objetivos didáticos, a prática revela que a realidade é um todo complexo, passível de ser interpretada a partir de perspectivas múltiplas e complementares. Nas provas discursivas de 2017, assuntos como tolerância, guerras e diplomacia pública foram temas da prova de português. O BRICS foi tema da redação de inglês. Uma das questões de direito dialogou com as dinâmicas de poder típicas da política internacional. A prova de geografia exigiu conhecimentos de sociedade e economia. Duas questões de economia têm origem na chamada “análise econômica do direito”, na qual direito e economia são analisados de forma conjunta. A prova de política internacional abordou temas de política externa brasileira, direito internacional público e, no limite, direito constitucional. Ou seja, cada vez mais as provas discursivas são interdisciplinares. Os candidatos são estimulados a fazer raciocínio conjunto entre as disciplinas, o que deve ser feito, também, durante toda a preparação.

O quinto é o princípio da curiosidade. Em entrevista concedida por Guimarães Rosa a um jornalista alemão, foi perguntando alguma característica típica de um diplomata. Sua resposta foi que “diplomatas devem ter curiosidade sobre as coisas”. Para o candidato, a curiosidade pode estar relacionada à busca de informações que, numa primeira análise, não possuem relação direta com o concurso, mas que, eventualmente, podem ser úteis na resolução das questões discursivas. A diversificação das fontes de estudo e conhecimento – literatura, cinema, teatro, museu, música, viagens, etc. – é útil para diferenciar as respostas que, por vezes, tendem a ser parecidas, já que a maioria dos candidatos utiliza as mesmas fontes de leitura. Pequenos conhecimentos sobre assuntos diversos podem resultar em variações de nota na segunda e terceira fases, o que pode ser determinante para o resultado do concurso. Acho válida a ideia de que devemos estar atentos a tudo, ou, ao menos, ao máximo de coisas possíveis. Na hora da prova, conhecimentos aleatórios podem ser determinantes para um desempenho acima da média na dissertação.

Equilíbrio, linguagem diplomática, regras do jogo, interdisciplinaridade e curiosidade. Em síntese, esses foram alguns princípios que fizeram sentido para a minha preparação. Entendo que cada candidato deve buscar suas próprias referências e traçar seu próprio caminho. Não existem fórmulas prontas, embora alguns pressupostos possam iluminar esse percurso. Parafraseando o ministro Luís Roberto Barroso, “você é competitivo quando tem um desempenho de longo prazo acima da média dos concorrentes (…), mas a direção certa é mais importante do que a velocidade (…) andar na direção errada não serve pra nada”. A preparação para o CACD não é um trabalho de Sísifo. O objetivo pode ser alcançado. E quando isso acontece, fica mais nítido olhar para trás e perceber que todo o esforço foi gratificante.

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