DINHEIRO na sua preparação – reflexões sobre os gastos com o CACD

 

LANDSCAPES _ PORTRAITS _ BLACK & WHITE _ PANORAMA (1)

*por Marcello Bolzan

São Paulo, 27 de março de 2018.

Pois é, hoje – como tantos outros seres humanos – acordei de mau humor. Certamente, os afazeres cotidianos não ajudam muito, sobretudo, porque em minha agenda não há aula a ser dada. Aula anima a gente, melhora o dia… e o humor. Acho que é troca de conhecimento. Ninguém dá aula sozinho. Ninguém ensina sem aprender. E aprender sempre melhora o humor. Pelo menos o meu.

Bom, mas a consciência diz que devo aproveitar mesmo aqueles momentos de preguiça, afinal, quis me tornar um homem produtivo. E não há nada mais adequado para se falar em um dia terrível do que sobre dinheiro. Acredite, se o sol estiver brilhando e um sujeito, do outro lado da rua, falar em dinheiro, nuvens carregadas esconderão os raios luminosos do sol e a noite se fará. Uma polaridade sem fim. No entanto, se há algo que o cacdista enfrenta é a escuridão, a noite nebulosa. O polo mau para chegar à luz.

Portanto, falemos sobre os terríveis gastos na preparação ao CACD. É preciso refletir um pouco sobre o quanto se tem de dispêndio na preparação à diplomacia. Com isso, derrubamos alguns mitos que infelizmente existem e afastam ainda mais bons candidatos da carreira. Comecemos por uma pergunta simples, tediosa e fundamental:

“Por que a preparação ao CACD é tão cara?”

Bom, na verdade, porque nunca te explicaram corretamente nada nessa travessia. Você chegou e a maré te levou. Uma enxurrada de informações desconexas geradas por cursos, alunos, ex-alunos, professores e diplomatas. No fim, você não teve nem oportunidade de pensar um pouco e chegar às suas conclusões sobre os gastos realizados. Não foi assim? Você apenas continuou a reverberar que a preparação ao CACD é elitizada, cara e para poucos. Mas, no fundo, nunca parou para analisar algumas coisas importantes.

Qual o motivo dessa assimetria de informação? Veremos isso em maior profundidade adiante, mas já adianto: quando um dos lados possui informações que ou outro não tem, ganhos são obtidos. Essa é uma triste história de desequilíbrio de mercado. Mas, vamos aos poucos. Logo chegaremos lá.

Quem sabe se começarmos comparando a preparação ao CACD às outras preparações a concursos semelhantes (em dificuldade e remuneração) não teremos um bom parâmetro? Refiro-me aos concursos públicos para as carreiras federais. Suponhamos (e essa é uma boa estimativa para todos os concursos federais) que a média de tempo de estudo para a aprovação seja de quatro anos. Claro, estamos falando de concursos como o CACD, a Receita Federal, a Magistratura Federal, a Procuradoria, cargos elevados do ciclo de gestão, etc. Salários que estão entre R$ 15.000,00 a R$ 30.000,00 ou mais.

A prova do CACD acontece todos os anos – há clara recorrência. Os outros concursos não. Podem demorar quatro anos ou mais para abrirem. Então, quatro anos de estudo é um bom chute. De modo geral, concursos maiores contratam 100 – 200 servidores. O CACD, 30 por ano. Na média, não está ruim. Todos contratam, pois, quase o mesmo quando a perspectiva é colocada em quatro ou cinco anos.

Se você pesquisar nos editais desses concursos verá uma coisa bem interessante. Enquanto o CACD cobra 11, os outros ultrapassam as 15 matérias facilmente. No concurso da Receita Federal de 2014, por exemplo, foram 18 matérias. Na magistratura federal, são 16 matérias. A dificuldade? Pode acreditar que o CACD, Procuradoria e Magistratura empatam e lideram o ranking dos concursos públicos nacionais. Ou seja, são concursos de altíssimo desempenho.

Aonde pretendo chegar com esse monte de informações?

Simples. Quero lhe mostrar que na preparação a outros concursos, o candidato precisará comprar mais cursos do que na preparação ao CACD. Refiro-me não apenas a cursos teóricos, mas também a cursos de exercícios de cada uma das matérias.

De modo geral, as cargas horárias médias no mercado são muito parecidas (ou seja, um curso teórico para a diplomacia possuí a carga horária compatível com um curso teórico para a magistratura, algo em torno de 64 horas). Desse modo, podemos arriscar um cálculo bem interessante. Comecemos pelos valores gastos na preparação à carreira diplomática.

O valor da hora aula que se cobra no IDEG é R$ 27,00, em média (este é o menor valor do mercado). Se fizermos um cálculo rápido veremos o seguinte. Com 11 matérias teóricas (64h cada), mais 11 cursos de exercícios (30h cada) e mais 6 cursos discursivos (30h cada) teremos 1214 horas, em média, para se estudar durante quatro anos. O valor total, a ser desembolsado em quatro anos, será de R$ 32.778,00 para fazer uma rodada de cursos. Logo, em quatro anos, você desembolsa, por mês, R$ 682,87. Não há dúvida. É muito dinheiro. Um investimento importante na vida de qualquer um. Porém, a expectativa é de um retorno de R$ 17.000,00 por mês até o fim da vida – sem contar benefícios – e um cargo elevado na gestão pública brasileira…

Perfeito, e para a Magistratura Federal? Nesse caso teremos 16 matérias. O valor da hora aula nesse mercado é de R$ 20,00, em média. Supondo cursos teóricos (64 h cada) e de exercícios (30h cada) para cada disciplina do concurso, então, o aluno estudará 1504 horas em quatro anos. O valor total a ser desembolsado é de R$ 30.080,00 ou, por mês, R$ 626,66.

Por fim, vejamos como os cálculos se comportam na preparação à Receita Federal, cuja hora aula é na média de R$ 17,00. O cálculo seria: 18 teóricos (64h cada) mais 18 cursos de exercícios (30h cada) totalizando 1692 horas para todas as disciplinas. O valor total desembolsado em quatro anos de preparação é R$ 28.764,00, ou mensal de R$ 599,25.

Repare que tomando, em média, a realidade das outras preparações – quando devidamente projetadas no tempo e guardadas as cargas horárias médias – chegamos a uma conclusão. Uma preparação para cargos elevados na Administração Pública brasileira custa, em média mensal, um desembolso que varia entre R$ 600,00 – R$ 700,00. Durante quatro anos. Esse é o resultado da história. Esse é o resultado da sua escolha pela preparação para se tornar um servidor público de alto escalão no Brasil.

O CACD não é o vilão da história. É um concurso público como qualquer outro de alto desempenho que serve para se contratar servidores públicos. O CACD não é nem mais nem menos do que isso. É um mecanismo e não o fim. E, demanda preparação especializada.

Aqui é preciso uma ressalva enorme: os valores de hora aula que coloquei acima são verificados nos maiores cursos especializados para a essas carreiras – IDEG, Curso Ênfase, Curso Gabarito, etc. Óbvio, que você encontrará pacotes que vendem aulas gravadas por R$ 5,00 a hora. Inclusive isso vem chegando à diplomacia. Francamente, estamos falando de preparações pesadas e especializadas. Nem vou contabilizar esses pacotões. Servem apenas para capturar os iniciantes inocentes que, infelizmente, não contam com informações. Esses cursos se aproveitam e capturam parte da renda, elevando aqueles valores calculados anteriormente, já que obrigam os alunos que chegam a refazerem continuamente as aulas para as matérias. Ou seja, ao repetir cada rodada de cursos calculadas acima, você começa a amplificar o gasto de modo exponencial. Para o aluno, esses cursos ajudam pouco. É um custo de entrada que luta há anos para derrubar, como coordenador do IDEG. Um jogo que me recuso a reconhecer.

Mas, você deve estar se perguntando – e eu já me perguntei muito isso desde que comecei o IDEG e sempre ficava de mau humor com essa pergunta -: “mas, porque, em minha trajetória na preparação ao CACD, já gastei bem mais do que isso ou porque a preparação pode se tornar muito mais cara?”. Meu amigo ou minha amiga, creia, em parte por sua responsabilidade e em parte pela assimetria de informação do mercado, que lucra muito com isso. Realmente, não é difícil encontrar candidatos que já enterraram mais de R$ 100.000,00 nessas preparações. Vamos entender isso.

Falando de sua responsabilidade. Na verdade, tudo isso tem a ver com o risco assumido. Esse investimento – como qualquer outro que se faz na vida – fica mais ou menos arriscado de acordo com o comportamento dos agentes e do contexto.  A sua decisão de escolher tal professor ou outro, tal curso ou outro, tal grupo de estudo ou outro condiciona diretamente o tempo e os valores que serão desembolsados. E isso faz parte do risco assumido na preparação à diplomacia. E aos outros tantos concursos também.

Resumindo, o risco afeta a média. E infelizmente, deve ser levado em conta. Por isso, escolher bem é fundamental, pesquisar qual o melhor é questão de sobrevivência. Senão, ao se repetir um curso já feito, aquele cálculo acima se torna outro. E os números crescem. Infelizmente, o que vejo são alun@s fazendo aquele giro nas matérias dos editais duas ou três vezes, ampliando veementemente os valores. Muitas vezes, porque não tiveram a paciência de pesquisar e escolher bem o objeto de seus investimentos. Não gostou da aula? É seu direito cancelar o serviço. Não se torne refém de contratos absurdos e abusivos que são impostos por cursos e professores. Aliás, isso nos leva à questão da assimetria de mercado.

A maior parte dos cursos, professores e, agora, coaching, mentoring, (essas coisas inovadoras que aparecem e desaparecem cotidianamente com métodos infalíveis e impressionantes – claro, sempre há exceções), etc não possuem a menor vontade de lhe dizer algo óbvio: a qualidade de tudo o que se oferece não depende apenas de didática, falas motivacionais, método de estudo ou piadas em sala de aula, depende de proposta pedagógica.

Depende de uma estrutura de ensino que seja realmente direcionada para a prova. Que não esteja camuflada por estatísticas absurdas de aprovação (em que se o aluno respirou perto do cursinho, ele é contabilizado como candidato aprovado e usado como um manequim de loja de departamentos para mostrar o que há de mais bonito para a moda CACD 2018). Os cursos precisam ser integrados, precisam de carga horária adequada e ampla, precisam de liberdade para o docente propor o melhor ensino e de um atendimento fora de sala que seja humano e customizado. É isso que te faz gastar menos. Que te faz terminar um curso e dizer “putz, consegui entender esse negócio. Agora, vou cair dentro de leitura e exercícios e vou pra prova”. A maior parte do que se tem à disposição para sua preparação é fundamentado na imagem do professor ou no marketing sobre a ferramenta que se vende.

Poucas são aquelas instituições que pensam os professores, a administração e o aluno como peças fundamentais de uma proposta pedagógica. Isso é preparação. O resto é ferramenta. Você pode ter o melhor professor do mundo ou estar no curso de maior renome. Sem proposta pedagógica (integração com o todo), sem conexão com outras matérias ou professores e sem direção para a prova será um dinheiro perdido.

Depois desses anos todos trabalhando com a preparação ao CACD posso afirmar: não acredito em método algum que não tenha três coisas: corpo docente de qualidade, administração capaz de tocar uma proposta e alunos motivados. É isso que gera aprovação e te faz gastar menos. Não as “super dicas preparadas uma semana antes da prova”. Mas, sabe… proposta pedagógica é caro, corpo docente de qualidade mais ainda e administração alinhada dificílimo… então, vamos vender ferramentas. Afinal, @ alun@ da diplomacia já se acostumou a pagar mesmo. Compram tantas coisas que no fim não conseguem mais auditar a efetividade do que compram. Esse é modo como muitos pensam no mercado. É triste, mas, como disse: estou de mau humor. Não me peçam para parar de escrever.

E esse ato de acreditar nas mazelas econômicas desse mercado, de pagar caro achando que é o certo simplesmente refletem um passado monopólico que já não existe há anos. Felizmente, todo o dano causado por esse tipo de postura, tem dado espaço a um rebaixamento estrutural de preços, ao aumento constante da qualidade e à proposição de proposta pedagógica de fato, não mercantilizada. Ao menos o IDEG pode colocar a cabeça no travesseiro sabendo que contribui e contribuiu para uma nova realidade de mercado. Apesar disso, ainda hoje, nada é mais entediante e enfadonho do que pesquisar a quantidade de soluções mirabolantes à venda. Que não fazem mais do que drenar a renda do aluno e aumentar aqueles números supracitados para a preparação. Bom, tudo isso é para pensar.

Tenho em mente que devo ter contribuído com algumas reflexões sobre “dinheiro”. Por favor, peço – se ainda houver algum leitor até esse ponto – para que, antes de dizer que a preparação da diplomacia é cara demais e injusta, reflita sobre “responsabilidades” e “assimetrias”. Porque eu, do alto de meu mau humor, e outros tantos conscientes jamais deixaremos de pensar formas de melhorar o mercado para você. Mesmo que sobre mim pesem a dimensão reduzida do mercado (ridiculamente menor do que os mercados dos outros concursos federais aqui citados) e as forças dos custos que se impõem. Tenho a certeza de que – juntos – poderemos, eu, você, um sem número de excelentes docentes e outras tantas administrações chegar ao ótimo de uma proposta pedagógica. Esse é o estudo de que precisamos nessa travessia ao CACD.

Vou tentar curar meu humor. E, você… sei lá… deixe de lado seus estudos um pouco e pense sobre a efetividade daquilo que você comprou. De duas uma: ou ficará animado e seguirá ou afirmará veementemente que meu mau humor é contagioso e, por isso, você deve repensar o que anda colocando no carrinho de compras.

Forte abraço.

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